Da fila de autógrafos ao autógrafo online

Uma multidão ficou mais de quatro horas na fila para conseguir um autógrafo do escritor Valter Hugo Mãe na Flip de 2011. O ritual repete-se todos os anos em Paraty. Leitores esperam em fila não apenas por uma assinatura ou dedicatória, que muitos podem julgar dispensável e até frívolo, e sim para trocar algumas palavras com o autor, dar um aperto de mão, olhar nos olhos; como se precisassem desse atestado de humanidade. Outros casos entraram para a história da festa, como o primeiro recorde, em 2006, na visita de Adélia Prado, e a fila de seis horas para falar com Neil Gaiman, em 2008.

Escritores não são artistas populares que conquistam fãs em paixões descontroladas, levando-os a desmaios, como acontece com músicos e atores. Não se cogitou, ainda, levar Jonathan Franzen ou Stephen King para um aceno de mão sobre um palco na Times Square em frente a uma enlouquecida plateia. Nem mesmo os dois tendo aparecido na capa da revista Time.

Em uma antiga crônica, Manuel Bandeira dizia que o maior temor do leitor é ser empulhado, é a sensação de sentir-se enganado. Talvez por isso alguns não queiram apenas compreender a obra e busquem uma comprovação da existência real do autor, uma confirmação de que aquele livro saiu de outro ser humano, vivo na mesma época e no mesmo espaço que o leitor.

English: Author Margaret Atwood attends a read...

English: Author Margaret Atwood attends a reading at Eden Mills Writers’ Festival, Ontario, Canada in September 2006. (Photo credit: Wikipedia)

Pensando nisso, a escritora canadense Margaret Atwood, que esteve na Flip em 2004, passa o chapéu para viabilizar um aplicativo que promete unir artistas e fãs em redes virtuais. A iniciativa chama-se Fanado. Com ele, escritores poderão dar seus autógrafos à distância em sessões de vídeo online e leitores poderão acompanhar, por exemplo, a rotina tediosa da escrita: manhã após manhã de trabalho contínuo em frente ao computador.

Para levantar os US$ 85 mil necessários para desenvolver o aplicativo, Atwood leiloou três personagens de seu próximo livro. Cada um deles sai por US$ 10 mil (um já foi vendido). Atwood, que tem 72 anos, está envolvida também com outra plataforma digital. Um quarto personagem de seu livro será sorteado entre os usuários de um site de troca de textos chamado Wattpad. No Wattpad, qualquer usuário (alguns são brasileiros) pode publicar textos em andamento, de qualquer gênero, para que outras pessoas, escritores ou não, deixem comentários e forneçam insumos que alimentem ou alterem a criação.

Sem abrir-se tanto às ingerências do público, o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte mantém um blog onde compartilha o processo de escrita de seu próximo romance, El Tango de la Guardia Vieja. No novelaenconstruccion.com, os leitores foram apresentados, em abril de 2012, ao livro: “Trata-se de um romance não histórico, iniciado em 7 de janeiro de 2011 (ainda que sua origem seja muito anterior), que pouco a pouco parece se encaminhar ao final”.

Ao longo dos últimos meses, Pérez-Reverte tem compartilhado imagens dos três locais por onde passam os personagens do livro: Buenos Aires, Nice e Sorrento. Faz também comentários sobre a trama, publica trechos do livro em andamento e escreve sobre o processo de criação: “São poucas as sensações tão agradáveis quanto dormir pensando na cena de seu romance que escreverá no dia seguinte (…). Amanhã, às 8h15, depois do banho e do café da manhã, estará sentado batendo as teclas em busca das palavras exatas para levar tudo, na maior fidelidade possível, da sua cabeça até o papel. (…) O primeiro parágrafo será: ‘A roupa estendida pendurada nas varandas, debaixo de chuva, como retalhos de tristes vidas’. Pode valer. Pensa. Para as primeiras tecladas. (…) Amanhã veremos, conclui. Revolvendo isso, enfim você dorme, perguntando-se mais uma vez como fazem aqueles que não escrevem romances e nem leem livros. Para suportar”.

El escritor Arturo Pérez-Reverte en la céntric...

El escritor Arturo Pérez-Reverte en la céntrica Plaza Mayor de Madrid. (Photo credit: Wikipedia)

O site de Margaret Atwood promete uma janela à sala de trabalho de escritores como Pérez-Reverte. Leitores ao redor do mundo conectados a uma câmera de computador, assistindo quando o escritor, enfim, às 8h15, digitar na tela: “A roupa estendida pendurada…”. Pérez-Reverte e Atwood são escritores com grande sucesso de público e de crítica. Atwood já levou todos os grandes prêmios internacionais, exceto o Nobel. Ao mesmo tempo, os dois lançam-se às novidadesdo mundo digital.

No Brasil, só quem se assemelha em número de leitores e exposição online é Paulo Coelho, que mantém blog, Twitter, conversa com fãs, disponibiliza livros na rede e tem histórico de provocar longas filas de autógrafos ao redor do mundo. Não à toa, ele é um dos apoiadores do site Fanado, embora nunca tenha aparecido na Flip.

Ao vivo ou pelo computador, autor e leitor sabem que um depende do outro. Ao pedir um autógrafo, o leitor às vezes parece querer lembrar o autor de sua importância, como se dissesse: “Se eu não abrir seu livro na primeira página e dedicar-me a ele em horas de leitura, será como se ele nunca tivesse existido”. E assim, esclarecidos os poderes, o leitor completaria: “Como prova de que sem mim você não existe, por favor, querido autor, assine aqui”.

Em algumas ocasiões, o encontro pode ir além. Em 2006, o jovem escritor Luiz Felipe Leprevost era o último na fila dos autógrafos de Adélia Prado na Flip. Quando chegou sua vez, Prado perguntou: “Uai, ficou nessa fila imensa só para me dar um abraço?” Ela sabia que não, e emendou: “Posso pedir uma coisa a você, filho? Promete que não vai parar de escrever?”

Muitos anos antes, em 1970, o também jovem escritor Caio Fernando Abreu soube que Clarice Lispector estava em Porto Alegre e correu para pegar um autógrafo. Dias depois, em carta a Hilda Hilst, relatou a experiência: “Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. (…) Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. (…) Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. (…) Voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim”.

Se encontros online podem ser transformadores assim, é o que resta saber.

PS: uma atualização, já são dois os personagens vendidos por Atwood para financiar o Fanado. Veja mais aqui.

* texto publicado no Diário do Comércio em 27/07/2012

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