Burros, muito burros demais

A Revista Carta na Escola publicou minha resenha do Livro  A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros, do jornalista norte-americano Nicholas Carr, no final do ano passado. O livro começou agora a chegar às livrarias. Aproveito para reproduzir aqui o texto, seguido da entrevista que fiz por e-mail com Carr. Leia abaixo a resenha:

O título A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros pode induzir o leitor a pensar que seu autor planeja um levante anti-Google, Microsoft ou Apple. Não é o caso. O que o norte-americano Nicholas Carr pretende mesmo, no livro que a Ediouro lança em novembro no Brasil, é entender como nossos cérebros funcionam na rede. Quando lançado nos EUA, em 2010, o livro – uma pesquisa abrangente dentro da neuro e da psicolingüística, ainda que sem rigor científico – causou polêmica ao sugerir que a maneira como obtemos informação na internet (em pedaços, picotada e de forma aleatória) nos deixa burros, muito burros demais, como dizia a respeito da televisão aquela música dos Titãs nos anos 80. A sensação é de estarmos mais inteligentes, de sabermos mais a respeito de universos cada vez mais abrangentes. Mas, segundo Carr, comparando-se a capacidade de articulação que temos hoje com a que nossos antepassados pré-internet tinham, o que vivemos poderia ser chamado de planeta dos macacos. A prova, qualquer um pode tirar. Ao final dessas páginas, que seguem com uma entrevista com o autor, você leitor corre o risco de achar que pode sair comentando sobre o livro (e não a respeito desta resenha), como se tivesse de fato lido a obra em questão. Ecos da Internet.

Carr defende, após construir justificativa respaldada tanto na neurociência quanto em exemplos empíricos, que a forma como produzimos algo influencia diretamente na sua forma final. Assim, ao utilizarmos a máquina de escrever, alteramos o texto final. Ao lermos um livro em papel, somos levados a pensar de uma determinada maneira, ao usarmos o mouse do computador, tudo fica diferente.  Isso explicaria porquê frequentemente pensamos “Como podíamos viver sem internet no passado?”, ou sem celular, sem DVD, videocassete, etc. A resposta é: o advento tecnológico mudou a maneira como construímos a própria vida, criando portanto novas necessidades. “Nós nos tornamos, neurologicamente, o que pensamos”, diz Carr. Os exemplos na obra são abundantes.

O livro também é útil para entendermos os fenômenos de massa que são um sucesso na rede, mas um fracasso no mundo real. Como o porquê de convocações para manifestações anti-corrupção movimentarem centenas de milhares de usuários no Facebook e levarem apenas 150 manifestantes ao vão livre do Masp. Resumindo, a Internet faz com que nos acostumemos com informações rápidas. A estrutura da rede é construída em um sistema de busca e recompensa. Cada vez que se clica em um link, há uma recompensa imediata. Isso opera em nossos cérebros formando sinapses novas, dentro de um processo conhecido como “reforçamento positivo” que faz com que esperemos cada vez mais respostas fáceis e imediatas.

O imediatismo e a superficialidade da navegação na rede também nos leva à multitarefa. Lemos o jornal no iPad enquanto assistimos um vídeo no YouTube, checamos e-mail, e navegamos em algumas janelas na rede. Ainda que tenhamos a sensação de estarmos dando conta de tudo, Carr diz que nossos cérebros só conseguem lidar com três ou quatro estímulos simultâneos. Quando outros estímulos disputam atenção, o cérebro simplesmente desliga uma das fontes e deixa de registrar as informações. Temos a impressão de que absorvemos conteúdo, mas é uma falsa sensação. Enquanto nos comportamos assim, as antigas sinapses construídas em nossos cérebros quando líamos longos textos, vão se desfazendo, dando lugar a novas e viciadas conexões. Quando saímos da Internet e abrimos um livro, tentamos reproduzir com as páginas impressas a mesma equação de busca e recompensa. Claro que, dessa vez, de maneira frustrada.

Carr cita um professor da Universidade do Michigan que diz ter perdido a “habilidade de ler” Guerra e Paz, de Tolstoy. Outro professor, Clay Shirky, da Universidade de Nova York, disse em 2008 que até aí tudo bem, já que “ninguém lê Guerra e Paz” mesmo. O usuário brasileiro do Twitter @teclologoexisto disse em 29 de agosto de 2011: “já li um Guerra e Paz só de sms este ano”. E sua mensagem foi retwittada por outras 111 pessoas. Carr, no entanto, quer que todas as páginas de seu livro sejam lidas. Se você ler apenas o primeiro capítulo, sairá com opinião deturpada. Se ler dois, pior ainda. Se quiser entender o que ele diz, será preciso ler todo o livro. Mais de uma vez, se necessário. Claro que ele corre o risco de ser mal compreendido. Mas essa é justamente a sua defesa, muito bem embasada em pesquisas e números estatísticos. Não se poderá dizer que os exemplos dados não são convincentes.

LEIA entrevista com Carr no site da Carta na Escola.




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