Divina Comédia – a PM na USP, a faxina da Dilma e o SUS do Lula
Meu ombro dói de tanto mexer nesse mouse. Quem foi que disse que ele foi uma grande invenção de Steve Jobs? Tenho uma bursite, desconfio. Agravada no último final de semana quando caí do skate. Sim, senhoras e senhores, eu caí do skate. Em praça pública. Na praça São Salvador, Rio de Janeiro, por volta das 22h00 de uma sexta-feira. Acontece.
Eu e meu irmão éramos skatistas nos anos 80. Andávamos na ladeira da morte, no QG, na Mustabi e na pista municipal de São Bernardo do Campo. Era o tempo da proibição, quando Jânio Quadros baniu o skate de São Paulo e fugíamos da PM. Ouvíamos Plebe Rude, o “Concreto Já Rachou”. Eu deixei o skate um pouco antes do impeachment do Collor. Tentei o surfe por um tempo. A praia era muito longe. Andava de bicicleta, mas tive duas roubadas e achei ser uma mensagem divina a me proteger de um futuro atropelamento que me tiraria a vida. Comecei então a fumar. Só parei de fumar quando fui fazer yoga. Mas, depois de dois anos, parei a yoga. Agora tenho essa bursite. E caí do skate.
Preciso voltar a fazer yoga. Preciso antes encontrar um lugar perto de casa que ofereça aulas de yoga. E, depois que encontrá-lo, preciso lembrar de arranjar um emprego que me dê dinheiro todos os meses para que eu possa pagar a mensalidade da aula de yoga. Mas, se eu arranjar um emprego, muito provavelmente, com tudo o que eu tenho que fazer, entre aulas, escritos, filha, família, e felicidade, dificilmente conseguirei fazer yoga, ou uma das opções anteriores.
Continuo achando muito difícil acreditar nesse modelo de trabalho onde fazemos um contrato com o patrão pelo qual trocamos oito horas de dedicação exclusiva diária por uma quantia qualquer no final do mês ou em duas vezes por mês. Como explicar isso em termos de evolução? Evolução de quê? Da escravidão? Evolução do ponto de vista de quem? Do patrão? Do trabalhador? Ou do Estado?
Já vejo alguém dizendo que eu não sei o que estou dizendo, que eu quero defender privilégios quando tantos outros seres humanos iguais a mim ralam muito mais do que as oito horas diárias para conseguir um qualquer no final do mês e mal pagar as contas, não conseguir rebocar a própria casa, não conseguir isolar a família das mudanças climáticas, sofrendo com umidade, fungos, bolor, sujeira, comendo comida transgênica, com glutamato monossódico, sem falar da falta de segurança que, na verdade, é assim mesmo já que tem tanta gente sofrendo muito mais do que…
E quem levanta a voz para dizer um isso ouve logo um cala a boca e vai andando, tá achando o que, que só você se fode nessa cidade? nesse país? tá achando o quê? você chegou hoje e já quer mudar tudo? eu estou aqui me fodendo há muito mais tempo do que você e eu já reclamei pra cacete e nunca ninguém fez nada então não vai ser para você que eles vão fazer alguma coisa, por que se eles fizerem, ai sim o pau vai comer meu filho, porque se fizerem para você e não para mim isso significa que você é melhor do que eu e, logo, que eu sou contra você.
E é mais ou menos isso o que eles querem. A polícia? O Estado? Os patrões? Os empregados? Eles são “eles”. Não somos nós, não é? E “eles” não têm culpa. Mas nós sim. Se eu peço um calçamento melhor na minha esquina, caraca véi, cê tá loco, com tanto rua que nem é asfaltada nessa cidade? E se eu vou ser atendido no Sírio Libanês, meu, fala sério, cê não tem vergonha de pagar essa grana toda para um plano de saúde e ainda ter que dar uma grana por fora para o médico operar o seu pai porque se não, cara, se ele morrer na mesa de operação porque você não pagou por fora para o médico, cara então você vai se arrepender para o resto da vida, e enquanto tanta gente amargura na fila do sistema único de saúde para ser atendido por um médico sem tempo, sem paciência e sem experiência que vai pedir um exame de urina quando você tem uma inflamação no braço esquerdo provocada por fungos?
E se eu passo no farol vermelho? E se eu não paro antes da faixa de pedestre para aquele cara de bermudas largas e cabelo rastafari atravessar? E seu eu não abro a janela do carro para o mendigo que vem moribundo pedir um trocado? E se eu não dou o lugar no ônibus ou no metro para o senhor e a senhora que, eu finjo não sacar, precisam de um repouso mais do que eu? E se eu, apertado que estou que não me aguento dou uma mijadinha na parede do prédio ao lado do bar, na madrugada, quando ninguém está vendo? E se eu, morrendo de pressa, meto a mão da buzina na esperança de que a humanidade desapareça e fique, à minha frente, apenas aquela rua asfaltada e vazia, os semáforos todos abertos, para eu passar? E se?
Pô meu, não se leva tão a sério assim. Tem jogo nessa quarta. Relaxa. Tem uns amigos vindo aí. A gente vai comprar cerveja. E na hora do gol a gente sai na varanda e xinga aqueles filia dumas puta dos vizinho, esses burguês de merda que torcem praquele timinho de florzinha. Relaxa ai meu. A vida é assim mesmo. Salve o futebol. A música. A cerveja. E o carnaval. A micareta fora de época também tá valendo.
E aí vem o outro gritando assim, lá do fundo, ali das profundezas do Facebook, ultrapassando todos os bloqueios e algorítimos que deveriam me proteger, que deveriam se encarregar de me oferecer apenas mais do mesmo, apenas aquilo que eu quero ouvir, mas lá vem ele ali, ele consegue avançar, de curtição em curtição, até que seu comentário aparece para mim, assim: “aí cuzão, é fácil ficar escrevendo essas baboseira na sua casinha com vista pras árvores no seu bairrozinho de merda que não quer metrô e é a toca do tucano. queria ver se você tivesse que acordar às quatro da manhã para chegar no ponto de ônibus senão não ia conseguir entrar no buzão meu irmão. aí sim, ia querer ver você fazer poesia. seu merda.”
Estamos todos afundando na lama, como condenados de Dante, um puxando o outro para baixo na esperança de conseguir colocar a cabeça para fora e respirar, sem desconfiar que o castigo é eterno, e é para todos. Lá no sexto ciclo, Dante pergunta ao glutão Ciacco sobre o destino das desordens funestas da cidade: “O sangue correrá sem conta: os da facção hão de expulsar os outros com afronta. Mas bem depressa há de haver mudança: volvidos só três sóis, serão vencidos por quem entre as facções hoje balança. O vencedor soberbo, aos submetidos, cruel jugo imporá depois da luta, surdo aos seus protestos e gemidos.” E isso lá no trecento. Mas já vejo o outro gritando lá: “ih, cara, lá vem ele citando a Divina Comédia, puta cara caga regra meu, quem é que dá uma pica pra Divina Comédia…” Em outro canto, o estudioso diz em voz baixa, apenas entre os seus, que essa tradução é muito ruim.
Enquanto isso, às oito horas da manhã, numa lan house em uma cidade pequena, garotos se divertem jogando Modern Warfare 3, versão pirata, baixado via torrent com um gato arranjado com um cara que fez um cursinho de eletrônica e puxou uns fio aí do poste e montou uma central de internet, cobrando 15 conto por mês para dar rede sem fio pra galera.
Um desses garotos da turma, já nem tão garoto assim, tem seu próprio blog, onde escreve que os jogos interativos em primeira pessoa são a experiência narrativa do futuro, muito mais complexas do que as histórias dos livros. Ali, ele também defende que os softwares de computador são as obras de arte do terceiro milênio. Mas ele ainda está dormindo. Ficou até tarde navegando e atualizando seu blog. Colocando posts com as palavras mais buscadas pelas pessoas no dia anterior, para desviar o tráfego da internet para a sua página e assim ganhar mais dinheiro com os anúncios que ele publica ali, anúncios vindos de uma grande rede multinacional. Como tem muita audiência, às vezes ele aceita publicar uns textos elogiosos sobre alguns produtos em troca de um sonho de valsa, um pedaço de fita, sei lá, um presente qualquer. Às vezes, também, faz consultoria para algumas empresas que não entendem nada dessa coisa de cultura digital.
Daqui a pouco ele vai acordar. E a primeira coisa que vai fazer é atualizar a sua conta no Twitter. Vai ver quais os tópicos estão bombando hoje pela manhã e vai publicar uma entrada assim: “Bom diaaaaa pra você que não aguenta mais ler/ver coisas sobre USP, SUS, Lula, Dilma e Faxina e só pensa no feriado. #prontofalei.” E assim sua audiência estará garantida.





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