TK-3000Tudo anda, mexe, remexe, muda, mas desde o TK-3000 que a questão às vezes parece ser a mesma. A cada dia aparecem soluções para problemas que não tínhamos. É a rede, estúpido… Mas isso já vinha se anunciando desde antes de a internet ser o que conhecemos hoje. Essa estrutura de redes que a internet estabelece não me parece (já vejo pedras caindo no meu telhado) muito diferente das estruturas de redes pré-digitais. A não ser por uma coisa: a ameaça de democratização.

No entanto, soluções para problemas que não tínhamos, problemas onde achávamos já ter solucionado tudo, a rede, a globalização e o TK-3000 mudaram tudo e dá-lhe esforço para se inserir, construir, estabelecer e entender as novas-velhas redes. Nesse processo de mudança entre velhas e novas redes há uma brecha para que os grupos sociais (estabelecidos ou não como redes) possam interagir, formar novas redes e interferir. Mas é uma brecha. O tempo leva à estagnação das novas redes, envelhece o que era novo e democrático. Exemplos por ai não faltam (mais pedras…).

Mas esse nariz de cera é apenas para recomendar a leitura de três textos. Um, traduzido pelo Murilão, no Ecologia Digital, sobre o fenômeno Obama (É a rede, estúpido, do NYT, em inglês.)
Outro, tirado do blog do Sérgio Rodrigues, sobre as mudanças do mercado editorial inglês (e de língua inglesa) nos últimos dez anos. Especialmente no que diz respeito à importância dos blogs literários ns EUA e sobre os leitores digitais (publicado no Guardian, em inglês).

XOE, por fim, outro texto que dá sabor a tudo isso, aquela história do “mostre” em vez de “conte”. Aqui, na janela do Apartamento 504, ainda por terminar, em texto do Jelin, esta crise que se perpetua desde a invenção do TK-3000, e a incrível possibilidade de pessoas comuns como você, eu e o Jelin conseguirmos fazer um quadradinho azul andar para frente e para três na tela de um computador. Foi o que fiz, por exemplo, após três horas tentando ensinar minha filha a “programar” com o XO que eu trouxe para ela usando o Scratch, software desenvolvido pelo MIT para ensinar às crianças a lógica da programação. Conseguimos fazer um gatinho mudar de cor enquanto dava passos parado no mesmo lugar

PS: Antes das pedras, conto uma história. O Governo de São Paulo colocou em consulta pública no mês passado um projeto de lei que proibia a pesca em todo o litoral norte de São Paulo (entre São Sebastião e Ubatuba, até a divisa com o Estado do Rio de Janeiro). O aviso da consulta foi publicado no site do governo e da secretaria do Meio Ambiente. Após um prazo determinado o projeto segue para a Assembléia, onde o governo tem maioria, para aprovação.

No entanto, um dos maiores prejudicados pelo projeto, os caiçaras do litoral paulista que dependem da pesca para sobreviver (uma vez que o mesmo governo proibiu a plantação comercial ou de subsistência na mesma região) não têm acesso à rede, não sabem usar computador e, muitas vezes, nem energia elétrica têm. Mas a rede social dos pescadores/caiçaras se mobilizou quase que tardiamente e conseguiu fazer com o que o governo voltasse atrás, alterando o projeto e permitido a pesca artesanal e de subsistência, tudo o que eles queriam (vide nota de esclarecimento publicada no site da secretaria do Meio Ambiente e a minuta alterada do projeto).

Esse é um exemplo de “brecha” na mudança entre novas e velhas redes que pode alterar a configuração de poder e força numa sociedade, nem sempre no sentido de democratizar a discussão.


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