E leio que o Brasil é uma potência energética de primeira grandeza agora. E leio que o Brasil movimenta 14 mil militares para exercícios de guerra. E leio que o Brasil investirá bilhões nos próximos anos equipando as Forças Armadas. E leio que o Brasil quer influir na OPEP. E aqui e ali ouço que nas Américas, não tem para ninguém, só Brasil e Estados Unidos (Brasil que foi Estados Unidos do Brasil, um dia).
E leio que a Yoko Ono mandou dizer, ao lado da banda de Oswaldinho da Cuíca, para Imaginar a Paz. No municipal de São Paulo, onde um dia jogaram tomates no Villa Lobos, no Municipal erguido com o dinheiro dos barões brancos do café paulista, ela mostrou imagens do Central Park, imagens de paz.
Deitado na grama do Central Park, o sol do outono me esquenta. Patos e gansos passeiam tranquilos num laguinho artificial construído ali perto da rua 100, onde até outro dia branco não ia de noite. Hoje a paz esquenta quem deita nos gramados do Central Park. Há dinheiro, há muito dinheiro sobrando para aparar a grama e alimentar os gansos. E os brancos já passeiam à noite ali.
Mas deitado na grama, eu penso em quantos milhões de seres humanos são obrigados a continuar vivendo abaixo da linha de pobreza ao redor do mundo, em quantos milhões de pessoas perderam as vidas, ou seus familiares, ou seus amantes, ou tudo isso ao mesmo tempo, ao redor do mundo, só para que alguém possa deitar na grama do Central Park e o sol calmo do outono deitar sobre ele e dar-lhe uma breve sensação de paz, ou para os brancos poderem andar além da rua 100 à noite.
E penso no Brasil preocupado com a corrida armamentista da Venezuela. Os Estados Unidos da América têm mais petróleo do que o Brasil. Mas não é o suficiente para eles. Os Estados Unidos da América têm um exército maior e melhor equipado do que o Brasil. E eles estão agora no Iraque, planejando a ponte-aérea para o Irã, estes sim com grandes jazidas de petróleo.
Mas alguém me diz que não consegue imaginar uma guerra na América do Sul. E eu penso no Paraguai (e isso me faz pensar no Haiti). Ninguém mais lembra do Paraguai. O Paraguai que o Brasil impediu de existir quando o Brasil tinha poder na América do Sul. E o Brasil está prestes a ganhar de novo este mesmo poder, já está no caminho. E o que foi que aprendemos? O que o nosso exército de 300 anos, que diz que os 14 mil soldados estão fazendo treinamentos de rotina, uma rotina nesses últimos 300 anos, o que é que esse exército aprendeu?
E penso na Rogéria censurada no Congresso. Ao lado do Collor. Sobre o Collor posando de celebridade ninguém disse nada. Mas a Rogéria andrógina transsexual semi-nua, um escândalo!

E penso que o caminho do desenvolvimento não passa apenas por arrumar as finanças e ser abençoado com petróleo em abundância.


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