Eles não usam black tie na Cidade de Deus

Existem obras prenunciadoras e outras atestadoras. Algumas delas caem sobre a história como selos incontentáveis da mudança dos ventos. Em 1968 Tom Jobim já tinha enfrentado o medo de avião e tocara no Carneggie Hall, em NY, na noite da Bossa Nova, mas via-se, ao lado de Chico Buarque, num embate histórico da múscia brasileira. Sábia desbancava Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, do posto de campeão do Festival da Record daquele ano. O júri fiou-se na desculpa de qualidade musical para o veredicto mas o ambiente político é que decidira o resultado da competição. Não bastou intérpretes dizerem que Sábia na verdade referia-se aos exilados políticos do regime militar ao dizer “vou voltar para o meu lugar”. Os versos de Geraldo Vandré calavam mais fundo o público e tinha um quê de universalidade que colocava o Brasil em pé de iqualdade com os demais países da América Latina que viviam sobre ditadura e ainda resgatava uma dívida histórica das lutas brasileiras contra o poder institucionalizado; “morrer pela pátria ou viver sem razão”.

Mas, dez anos antes, o ator e escritor nascido na Itália Gianfrancesco Guarnieri já prenunciava temas que o restante do século e ainda o seguite veriam tornar-se pétreos. Em Eles não Usam Black Tie, a favela e o operariado eram o centro da discussão. Não que fossem, a bem da verdade, assuntos novos mas o molho em que foram colocados dava o tempero exato do que seriam os movimentos sindicais que se seguiriam décadas à frente, traçava um panorama neo-realista das favelas brasileiras e apontava o cerne do abismo social entre periferia e burguesia nos grandes centros brasileiros fazendo creer que a distância tinha mais a ver com caráter (ou a falta dele) do que com fatalismo sócioeconômico.

E a favela de Guarnieri havia surgido pelo menos 50 anos antes da obra, com a vinda dos ex-combatentes da Guerra de Canudos que voltavam do sertão baiano e instalavam-se nos morros cariocas. A favela, até então, nada mais era do que o assentamento dos mesmos soldados que anos antes atocaiavam-se no Morro da Favela, distante alguns metros do rio Vaza Barris, do outro lado da Igreja de Antônio Conselheiro. Dos combates entre as tropas da República e dos seguidores de Conselheiro, poucas dezenas de beatos sobreviveram. Dois batalhões do Exército foram dizimados mas o terceiro, composto por soldados de quase todos os Estados da federação, sobreviveu, e voltou para o Rio de Janeiro.

Assim marca-se o relacionamento permissivo entre o centro e a periferia. O atual presidente da República, também um ex-auto-exilado nos anos 60, participou ativamente dos movimentos sindicais da década de 80 no ABC paulista, mesmo movimento que apontou Luiz Inácio Lula da Silva, presidenciável com grandes chances de subir ao trono, como líder dos trabalhadores nas negociações com os empresários empurrando-o naturalmente para a vida política.

Mas de 1964 a 1989, enquanto uma nova classe política se formava, muita sujeira política ia sendo jogada para baixo do tapete, ou para longe dos centros urbanos. Sob um regime de ordem moral, cívica e religiosa militar o que incomodava o governo era descartado para fora do País ou mesmo dentro dele, como Cidade de Deus, condomínio popular erguido pelo governo na exterma periferia do Rio de Janeiro para abrigar favelados desabrigados cariocas. Na Cidade de Deus, à época, nem água, nem luz, nem condução chegavam.

Os responsáveis pela política habitacional do governo sabiam que o regime militar não duraria para sempre e que portanto tal solução, tirar dos olhos burgueses o que eles não sentem, só poderia voltar-lhes como ameaça num futuro distante. Mas a Cidade de Deus cresceu enormemente, assim com o assentamento de ex-soldados de Canudos e assim como a cidade do Rio de Janeiro que numa bela manhã de verão assistiu pela janela ou pela TV Globo o arrastão de favelados nas praias cariocas.

Mas muito antes do pânico causado pelas imagens transmitidas em rede nacional a violência já era regra na Cidade de Deus e em outras favelas do País. E o filme que estréia nessa sexta-feira em cem salas de cinema revela o desenrolar dessa violência. Mas ao contrário do que andam dizendo críticos e outros críticos que tentam reduzir a história a entretenimento burguês, o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, baseado na obra de Paulo Lins (que por sua vez é baseado em fatos reais), é um retrato humanístico do resultado da falta de planejamento urbano e social de décadas de descaso com trabalhadores da periferia. Quem disser que o filme dilui a violência para ser aceita pela classe média ou passou o último ano no Afeganistão ou vê a realidade como pura ficção.

Cidade de Deus não é maniqueísta. Mas valores pré-concebidos do público podem levá-lo a repetir sentenças que só reafirmam o abismo entre favelados e a classe média. Nada no filme pode sustentar a hipótese de que o narrador teve melhor futuro que os demais personagens. Mas deixa claro a dificuldade que passou para poder “subir” de classe. O resto é preconceito do público e da crítica.

Os moradores da Cidade de Deus, e de outras favelas, sofrem há décadas o descaso dos homens públicos. Fernando Henrique Cardoso, ex-perseguido, gaba-se de ter ampliado o número de pessoas perseguidas pelo regime militar com direito a indenização do governo. Recentemente ampliou o direito a trabalhadores que foram demitidos por motivos políticos e para ex-aviadores da aeronáutica que foram impedidos de trabalhar. Talvez chegue o dia em que os moradores de conjuntos habitacionais construídos pelas administrações públicas com fins eleitoreiros baratos ganhem o direito de receber indenização por terem sido obrigados (economica ou judicialmente) a viver em condições precárias por décadas e por terem tido dificultado ao máximo a possibilidade de, querendo, mudar de classe social. Mas nem os descendentes de escravos receberam alguma indenização até hoje. Sobra Responsabilidade Fiscal e falta a Social.

Cidade de Deus, o filme, foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cannes, na França. Lá, poucos jornalistas brasileiros se interessaram pela história, preferiram entrevistar Woody Allen, Cameron Diaz, Leonardo DiCaprio. A imprensa internacional agendou cerca de cem entrevistas com o diretor Fernando Meirelles. Eles Não Usam Black Tie, o filme de Leon Hirszman (1981), fez ainda mais sucesso no mesmo festival, levou cinco prêmios, incluindo o Leão de Ouros Especial do Júri. As críticas nacionais a Cidade de Deus reduzem o filme a mero entretenimento que trata a violência como objeto de consumo, assim como os piores filmes da indústria dos Estados Unidos. Eles Não Usam Black Tie, por sua vez, é objeto raro em quase todas as locadoras. Comprá-lo é impossível, fora de catálogo. Mas a história, prenunciadora, graças a Guarnieri, recentemente voltou aos palcos, mais de 40 anos após a primeira encenação pelo Teatro Arena.

E a saída para o atestador Cidade de Deus talvez seja mesmo, como repetiu três vezes o maestro de Sábia em pleno regime militar, o Aeroporto Internacional Tom Jobim, ainda que cantando “vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar”.


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