Escrevi esse texto para o blog da Cosac Naify no começo de março. Falo sobre as aulas com James Wood na Columbia, sobre o livro Como Funciona a Ficção e de outro, The Broken Estate, sem tradução para o Brasil. O começo do texto segue abaixo, e a íntegra, no site da Cosac.
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James Wood caminha devagar pelos corredores da Escola de Artes da Universidade Columbia embora pareça estar sempre um pouco atrasado. Levemente curvado para frente e aparentando timidez, parece tentar fugir da eventualidade de pisotear alguém com sua espalhafatosa aura de crítico da New Yorker que acha David Foster Wallace entediante e que Zadie Smith sofre de histeria.
Em uma pequena sala de aula, 20 alunos do mestrado em criação literária se espremem em cadeiras de plástico pretas alinhadas entre uma longa mesa de fórmica e paredes bege esperando pelo professor. Na chegada, Wood tira o paletó escuro e tenta apoiá-lo sobre o encosto da cadeira. O paletó escorrega para o chão, onde permanece até o fim da aula. Dobra as mangas da camisa branca, que tem os dois primeiros botões abertos. De uma pasta retira um CD. Toma emprestado o computador de um aluno. Ouvimos a uma das “Variações Goldberg” na interpretação de Glenn Gould. “Agora vocês imaginem o que foi para esse narrador ter crescido e estudado com Glenn Gould.” Nas duas horas seguintes, conversamos sobre O náufrago, de Thomas Bernhard. O professor quer saber o que pensam os alunos sobre os livros que serão estudados ao longo de dois meses de encontros. Dentre todos, apenas Thomas Bernhard não tinha sido analisado em seu Como funciona a ficção, lançado em Nova York pouco antes do início das aulas.
Wood está preocupado com a construção de um entendimento comum, de um common reader. Naquela sala, leitores são também escritores. E ele não está particularmente interessado em ser o dono da razão. Se um de nós faz algum comentário que difere do seu, ouve com atenção, depois emenda uma frase repetida muitas vezes ao longo do curso: right, perfect, you’re absolutely right. E então parte para elaborado exercício retórico na tentativa de aproximar os dois comentários. O texto deveria permitir variados entendimentos, não é um sistema fechado.
Leia o texto completo aqui: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=13868
Para alguns povos, o mundo pode ser descrito em apenas três cores: branco, preto e vermelho. Já no paleolítico as três cores eram utilizadas em pinturas rupestres nas cavernas. Se o branco é a união de todas as cores e o preto é a ausência delas, digamos que o vermelho é a cor em si, a cor primordial. Vermelho fogo, vermelho sangue. No Gênesis, vermelho é a cor do fruto da árvore do conhecimento. Depois que Adão e Eva mordem a maçã, percebem que estão nus. O pecado original. Dessa tríade nasceram todas as demais associações entre a cor, imagens e simbolismos construídos pela humanidade nos últimos cinco mil anos. Associações que foram intensificadas e banalizadas abundantemente pelo cinema.
Assim como no Gênesis, os primeiros vermelhos do cinema eram cores que não podiam ser conhecidas, nem percebidas: o vermelho dos filmes em preto e branco. O batom e o vestido vermelho com o enorme laço na cintura usados por Rita Hayworth no filme Gilda, de 1946, por exemplo, jamais foram vistos. Somente por causa dos cartazes é que se intuía estarem vendo uma mulher de tomara que caia vermelho. Em outro filme, Uma Viúva em Trinidad, de 1952, a mesma Rita Hayworth, para aproveitar o sucesso de Gilda, aparecia com outro vestido vermelho para anunciar um filme que só podia ser visto em preto e branco.
Já em 1956, com Os Dez Mandamentos, o público pôde, enfim, ver a capa vermelha de Charlton Heston como Moisés cruzando o Mar Vermelho no filme de Cecil B. DeMille. No mesmo ano apareceu na França o Le Ballon Rouge, de Albert Lamorisse, que mostra a história do garoto perseguido por um balão vermelho pelas ruas de Paris. Dois contos de libertação: a de um povo ou de uma pessoa. Continuar Lendo »
Escrevi, no começo de 2012, um pequeno ensaio para a Revista A[L]BERTO sobre alguns autores norte-americanos contemporâneos que admiro: David Foster Wallace, Jonathan Franzem, Lydia Davis e um jovem escritor de Nova York ainda pouco conhecido no Brasil de nome Tao Lin. O título do ensaio, inclusive, é roubado de um dos poemas de Lin. No texto, defendo uma questão que parece ser essencial na obra desses autores: a tentativa deliberada de construir pontes de entendimento com os leitores. Pode parecer óbvio, mas não é.
Lembro de uma entrevista com David Foster Wallace em que ele fala da dificuldade de escrever para um público que cresceu sendo levado a acreditar que arte é aquilo que entretém, que é fácil, simples, distrai e não causa nenhuma dor no espectador. Para ele, essa era uma das belezas de se escrever na passagem do século 20 para o 21.
Os quatro escritores são muito diferentes entre si. Mas todos fazem esforços genuínos para respeitar a inteligência e as expectativas do leitor. E sem que isso configure subserviência. Sem que precisem abandonar seus planos literários e estéticos.
Uma cópia da revista foi colocada online recentemente, aqui: http://spescoladeteatro.org.br/revista-sp/
O ensaio, na página 109, pode ser lido clicando-se neste link: http://issuu.com/ajs_anderson/docs/a_l_berto__2/109
Dos quatro, apenas Jonathan Franzen e David Foster Wallace já foram traduzidos no Brasil. Franzen já esteve na Flip. A obra de Wallace vem sendo lançada pela Companhia das Letras. Lydia Davis teve apenas alguns contos traduzidos na Revista Piauí. Tao Lin, que eu saiba, foi traduzido apenas pela Bruna Beber, recentemente (aqui e aqui).

Dia desses caminhávamos eu e um amigo pela orla de Santos, conversando sobre cultura digital. ”Você não leu o meu último texto no Diário do Comércio?”, perguntei. Respondeu que não, nem sabia do que eu estava falando. “Você está compartilhando essas coisas na rede?”, perguntou.
“Você não viu no meu Facebook?” Não, ele não tinha visto. Descobrimos ali que nada do que era publicado na timeline do Facebook dele aparecia para mim. E vice-versa. “Mas isso é muito estúpido. Eu e você aqui reclamando que não sabemos um do outro porque o Facebook não deixa. Eu e você, que nos conhecemos há quanto tempo, que trabalhamos com internet há quanto tempo?”
Desde o século passado. Desde quando acreditávamos que a rede era a encarnação do cordeiro de Deus que tiraria os pecados do mundo. Mas então veio o estouro da bolha. Depois pensamos que a rede construía-se lenta e democraticamente como um poderoso mantra de resistência pacífica capaz de levar independência a todos os seres contra todos os impérios. E eis que apareceu o Orkut. Em 2005, lancei a campanha “Troque seu Orkut por um blog”. Logo depois ajudei a escrever uma coleção de livros com a intenção de facilitar o trabalho das pessoas que queriam tomar posse de seus quadradinhos virtuais, que queriam declarar soberania sobre a produção de seus próprios conteúdos e fazer seus próprios jornais. A coisa bateu asas e com a ajuda de amigos, levantou voos aqui e acolá. Mas apareceu o Facebook. Continuar Lendo »



